TEA e Exercício: Desafios e Oportunidades para o Profissional de Educação Física

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um grupo de condições do neurodesenvolvimento que afetam a forma como uma pessoa se relaciona e se comunica com o mundo. Ele se manifesta por dificuldades na interação social, na comunicação e por padrões de comportamento restritos e repetitivos. Importante: o TEA engloba uma diversidade de manifestações e gravidades, geralmente observadas precocemente, por volta dos três anos de idade.

Pessoas com TEA podem apresentar desafios em diversas áreas, como:

  • Comunicação e linguagem: Dificuldade para iniciar ou manter conversas, compreender nuances sociais e usar a linguagem de forma recíproca.
  • Aprendizado: Podem ter ritmos e formas de aprendizado diferentes, exigindo abordagens personalizadas.
  • Interação social recíproca: Desafios em compartilhar interesses, emoções e em compreender perspectivas alheias.
  • Comportamentos repetitivos e estereotipados: Movimentos repetitivos (balançar o corpo, agitar as mãos) ou adesão rígida a rotinas e rituais.
  • Pouca capacidade de adaptação: Dificuldade em lidar com mudanças ou situações inesperadas.

Diagnóstico do TEA: Níveis de Suporte e Classificações

Dois documentos originais reconhecem o TEA: (1) CID-10 (Classificação Internacional de Doenças) e DSM-V-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

O diagnóstico do TEA é feito com base nos critérios estabelecidos pelo DSM-V-TR (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – 5ª edição – revisada) e é classificado em três níveis, de acordo com o suporte necessário:

  • Nível 1 (Suporte): A pessoa precisa de algum apoio para intermediar suas relações sociais e interações com objetos.
  • Nível 2 (Suporte Substancial): Há déficits mais acentuados nas habilidades de comunicação social (verbal e não verbal) e interesses menos flexíveis. Respostas anormais a situações sociais são observadas.
  • Nível 3 (Suporte Muito Substancial): Caracteriza-se por déficits graves nas habilidades de comunicação social, grandes limitações nas interações e uma forte fixação em rituais repetitivos. Interrupções nesses rituais podem causar acentuado sofrimento.

Além dos níveis de suporte, o TEA pode ser classificado considerando outros fatores, como:

  • Com ou sem deficiência intelectual.
  • Com ou sem comprometimento da linguagem.
  • Associado a uma condição médica conhecida ou fator ambiental.
  • Associado a outra desordem de desenvolvimento comportamental ou mental.
  • Com ou sem catatonia.
Fonte: Pexels

Movimento e TEA: Desvendando as Dificuldades Motoras

Embora as dificuldades motoras não estejam nos critérios diagnósticos formais do TEA, muitas pesquisas têm demonstrado a presença de movimentos atípicos e padrões motores amplos incomuns em pessoas com o transtorno.

É comum observar:

  • Maneirismos motores estereotipados e sem propósito: Agitação das mãos, espremer-se, correr de um lado para outro, agitar os braços e andar nas pontas dos pés.
  • Dificuldade na marcha: A efetivação e o padrão da marcha podem ser incomuns.
  • Falha na motricidade fina: Dificuldades na escrita e em outras tarefas que exigem precisão manual.
  • Sintomas associados (muitas vezes sutis): Instabilidade postural, assimetria motora, hipotonia (redução do tônus muscular), atrasos no controle motor fino e no desenvolvimento de habilidades motoras fundamentais, além de déficits de coordenação motora e movimentação ocular.

Um estudo de revisão sistemática recente de Wang et al. (2022) concluiu que crianças e adolescentes com TEA podem apresentar um déficit motor geral significativo, com maiores desafios em habilidades de controle de objetos, seguido por equilíbrio e postura, e movimentos da parte superior do corpo.

A Conexão entre Habilidades Motoras e Sociais no TEA

Interessantemente, pesquisas como a de Fitzpatrick et al. (2017) sugerem uma correlação entre habilidades sociais e motoras em crianças com TEA. Em um estudo de imitação e sincronização de movimentos, crianças com TEA demonstraram mais dificuldades em imitar e sincronizar movimentos com outras pessoas, além de apresentarem um padrão de sincronização social menos estável e movimentos mais lentos e variáveis em tempo e espaço.

Isso nos leva a uma importante reflexão: as habilidades sociais podem interferir nas habilidades motoras, especialmente nas interpessoais. Essa conexão aponta para a possibilidade de que intervenções focadas em atividades motoras que promovam a sincronização possam ser uma alternativa para o desenvolvimento das habilidades sociais em crianças com TEA. No entanto, é fundamental destacar que mais pesquisas são necessárias para aprofundar esse entendimento.

Exercício Físico e Habilidades Motoras no TEA: O Poder da Prática

Visto que as dificuldades motoras são uma realidade para muitas crianças com TEA, a grande questão é: exercícios que trabalham essas habilidades motoras podem realmente melhorá-las?

Embora as pesquisas sobre esse tema ainda sejam recentes, os resultados são promissores!

Um estudo de Dong et al. (2021) observou 22 crianças com TEA que praticaram habilidades motoras (como correr, saltar, arremessar, driblar – habilidades presentes no TGMD-3) por 80 minutos, três vezes por semana, durante nove semanas. Os resultados foram animadores: houve uma melhora significativa no desempenho de todas as habilidades motoras logo após a prática, e essa melhora se manteve para as habilidades locomotoras mesmo dois meses depois. Apesar de uma limitação metodológica no grupo controle, este estudo acende uma luz: a prática de habilidades motoras promove aprendizado e melhora do desempenho motor em crianças com TEA.

Avaliação Motora no TEA: Desafios e Adaptações

Ao falarmos em avaliação motora, surge a dúvida: os testes motores convencionais são válidos para crianças com TEA?

Estudos sugerem que o desempenho motor reduzido em crianças com TEA pode não ser apenas resultado de um déficit motor ou falta de competência em habilidades motoras fundamentais. Muitas vezes, a dificuldade reside na não compreensão da tarefa (Berkeley et al. 2001; Bhat et al., 2011; Green et al., 2009; Staples; Reid, 2010).

Pensando nisso, Allen et al. (2017) desenvolveram uma alternativa visual para avaliar as habilidades motoras fundamentais de crianças com TEA. O instrumento de avaliação permanece o mesmo (como o TGMD-3), mas os autores adicionaram uma escala visual com imagens dos critérios de cada tarefa. Assim, a criança recebe a instrução por meio da fala, da demonstração e do suporte visual das imagens. Essa adaptação se mostrou válida e com boa reprodutibilidade na aplicação com crianças com TEA. É uma ferramenta promissora, que, esperamos, em breve esteja disponível e validada em português.

Recentemente, o Ministério do Esporte elaborou um Guia de Atividade Física para Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), que está disponível de graça em: https://www.gov.br/esporte/pt-br/noticias-e-conteudos/esporte/copy_of_GuiadeAtividadeFsica_NOVADIAGRAMAO.pdf.

Fontes:

BERKELEY, S. L.; ZITTEL, L. L.; PITNEY, L. V.; NICHOLS, S. E. Locomotor and object control skills of children diagnosed with autism. Adapted Physical Activity Quarterly, 18(4), 405–416, 2001.

BHAT, A. N.; LANDA, R. J.; & GALLOWAY, J. C. Current perspectives on motor functioning in infants, children and adults with autism spectrum disorders. Physical Therapy, 91(7), 1116–1129, 2011.

GREEN, D.; CHARMAN, T.; PICKLES, A.; CHANDLER, S.; LOUCAS, T.; SIMONOFF, E.; BAIRD, G. Impairment in movement skills of children with autistic spectrum disorders. Developmental Medicine & Child Neurology, 51(4), 311–316, 2009.

STAPLES, K. L.; REID, G. Fundamental movement skills and autism spectrum disorders. Journal of Autism and Developmental Disorders, 40(2), 209–217, 2010.

ALLEN, K. A. et al. Test of Gross Motor Development-3 (TGMD-3) with the Use of Visual Supports for Children with Autism Spectrum Disorder: Validity and Reliability. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 47, n. 3, p. 802-811, mar. 2017. DOI: 10.1007/s10803-016-3005-0.

DONG, L. et al. FMS Effects of a Motor Program for Children With Autism Spectrum Disorders. Perceptual and Motor Skills, p. 1-22, 2021. DOI: 10.1177/00315125211010053.

FITZPATRICK, P. et al. Evaluating the Importance of Social Motor Synchronization and Motor Skill for Understanding Autism. Autism Research, v. 10, n. 10, p. 1687-1699, out. 2017. DOI: 10.1002/aur.1808. WANG, L. A. L. et al. Gross Motor Impairment and Its Relation to Social Skills in Autism Spectrum Disorder: A Systematic Review and Two Meta-Analyses. Psychological Bulletin, v. 148, n. 3-4, p. 273-300, 2022. DOI: 10.1037/bul0000358.

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